Sempre
que pensamos em rock, pensamos em bandas e cantores que se tornaram
verdadeiros monstros da música. Grupos como Led Zeppelin, Iron
Maiden, Deep Purple, Pink Floyd, Black Sabbath, Beatles, Rolling Stones,
entre outros, mas esquecemos que o Brasil nos deu verdadeiros gênios
da música, principalmente do rock. De todas as bandas que passaram
por esses anos, podemos afirmar com convicção que a
Legião Urbana foi a maior de todas.
Porque
a maior? É uma pergunta para qual a resposta é a própria
trajetória da banda. A Legião foi uma das poucas bandas
que sobreviveu por quase duas décadas num estilo de música
com tantas mudanças e modas como o rock n'roll. É uma
banda que possui fãs apaixonados, que a idolatram como uma
religião, o que infelizmente trouxe problemas para a banda,
como nos trágicos shows de 86 e 88 que mostraremos a seguir.
Suas músicas tinham algo que faltava em muitas outras bandas:
poesia e letras que praticamente "conversavam" com o público.
Quem que nunca se identificou com alguma música do Legião?
Todos nós com certeza já ouvimos ao menos uma música
que tinha algo para nos dizer. E, para resumir, foi uma banda que
alcançou um sucesso fenomenal sem estratégias de marketing
e com raríssimas aparições na TV, sempre seguindo
seus princípios (provavelmente herdados da época em
que seus integrantes faziam parte do movimento punk).
Legião
Urbana é isso. Uma relação de amor ou ódio,
um grupo que sabia como ninguém fazer música e expressar
seus sentimentos e os sentimentos dos jovens de toda uma nação,
fazendo-os pensar no que acontecia no mundo ao seu redor. Uma banda
que hoje faz parte da história da música no Brasil,
e que com certeza estaria levando seu trabalho adiante por muitos
anos se Renato ainda estivesse vivo.
A História
da Legião remonta ao final dos anos 70, época em que
o cenário do rock brasileiro não estava muito definido.
Naquela época, se você pensasse em rock o que viria a
cabeça seria o movimento da jovem guarda, indo mais no passado,
e grupos como os Mutantes e cantores do porte de Raul Seixas, tido
por muitos como o verdadeiro pai do rock moderno brasileiro. Nessa
época o mundo transpirava ideologia, com vários movimentos
culturais e sociais ocorrendo ao redor do mundo. No Brasil, os hippies
saiam de cena e entravam os punks, com suas atitudes agressivas e
até anarquistas. O celeiro do movimento punk foi Brasília,
e nesse meio estavam jovens que se tornariam os mestres do rock nos
anos 80, entre eles Renato Russo, André Pretórius (ex-Plebe
Rude), Fê Lemos e Íco Ouro-Preto (Ex-Capital Inicial)
só para citarmos alguns...
Todos eles
faziam parte de uma gigantesca turma (ou tchurma, como se dizia) que
se reuniam para conversar, beber, amar e se divertirem como puder.
Diversão, naquela época, era algo complicado em Brasília,
ela praticamente não existia. Restava as turmas organizarem
festas (e ocasionalmente invadirem em bando as festinhas caretas)
onde bebiam e escutavam punk rock. Foi uma dessas festas que André
Pretorius conheceu Renato Russo, mas precisamente por causa do punk
rock. Pretorius olhou os discos que estavam tocando e quis saber quem
era o dono deles, e é aí que entra Renato. Nas palavras
do Renato Russo o encontro foi mais ou menos assim: "André
Pretorius parecia um Sid Vicious loiro. Ele encontrou comigo e perguntou
- Cara, você gosta de Sex Pistols ? - Sex Pistols ? Yeah! Legal!
- Então que tal formamos uma banda ? ".
Bandas eram
o que não faltavam naquela turma. Foram formadas várias
na época e todas elas interagiam entre si, trocando integrantes
e músicas, e organizando festivais. Querem um exemplo ? Capital
Inicial tocava "Fátima" com a letra de Faroeste Caboclo
e o Legião fazia o inverso. Imaginem o que isso causava. Dentre
as bandas de Brasília, as mais importantes (por fazerem parte
da "tchurma") eram Aborto Elétrico (a primeira banda
de Renato Russo, considerada o embrião do Legião Urbana,
que inclusive incorporou suas músicas no repertório),
Blitx 64, Metralhaz, Dado E O Reino Animal, Vigaristas de Istambul...
entre muitas outras (todas essas bandas seriam dissolvidas em poucos
anos, e seus integrantes formariam os grupos que dominaram o rock
dos anos 80, como por exemplo o Capital Inicial, Plebe Rude e, é
claro, o Legião).
Depois do
encontro entre Renato Russo e André Pretorius, os dois formaram
o Aborto Elétrico, tida como a primeira entre as bandas punk
de Brasília. Com Renato no baixo e nos vocais, André
na guitarra e mais Fê Lemos na bateria o trio estava formado
e pronto para tocar.
O aborto
elétrico, formado em 79, durou apenas até 1982, fruto
de brigas entre Renato Russo e Fê Lemos. Fê Lemos era
tão temperamental quanto Renato, e era também um dos
mais influentes da turma. Eles chegaram a discutir inclusive durante
os shows, brigando no palco por causa da insistência de um se
sobressair mais que o outro na música. Após uma dessas
brigas Renato decide sair do grupo, e começa a tocar sozinho,
definindo um estilo mais folk, que seria adotado no repertório
do Legião Posteriormente. Dessa fase, Renato cantava músicas
mais completas com um storyboard, como Eduardo e Mônica, Faroeste
Caboclo, Dado Viciado, entre outras.
Depois do
sucesso do Aborto Elétrico, as outras bandas de Brasília
começaram a aparecer.. E com a explosão dos Paralamas
do Sucesso no Rio e em São Paulo, e com o sucesso que o Plebe
Rude estava alcançando com suas músicas politizadas,
Renato Russo decide formar uma nova banda junto com Marcelo Bonfá.
Este, por sua vez, vinha de algumas experiências com outras
bandas, como o Metralhaz e por último no Dado e o Reino Animal.
Durante
suas experiências solo, Marcelo começou a flertar com
vários modelos de som, desde reggae à música
computadorizada. Juntos, os dois decidem formar uma nova banda, a
Legião Urbana.
Renato e
Marcelo, depois de decidirem montar uma banda, alugam uma sala no
Brasília Rádio Center para começarem suas primeiras
experiências, mas para que o grupo estivesse completo faltava
um guitarrista.
Renato Russo
andou observando então Eduardo Paraná, um conceituado
guitarrista de Brasília, tido com o melhor deles na época.
E durante um show de Paraná em um barzinho, Renato fez o convite,
o qual Paraná aceitou na hora. Era a chance dele tocar em uma
banda nova, e de entrar para a tchurma ao mesmo tempo.
Aos três,
se juntou Paulo Paulista, tecladista, que entrou e saiu da banda sem
marcar presença. Fou o único tecladista fixo de toda
a história do legião, posição que depois
foi ocupada pelos membros da banda ou assumida por músicos
convidados. Era a primeira vez que Paulo e Paraná tocavam em
uma banda elétrica, fato que motivou os dois.
O nome legião,
foi sugerido pelo próprio Renato Russo, que conforme uma entrevista
dada a Showbizz, poderia ter tido qualquer outro nome. O Legião
veio porque eles eram uma turma muito grande, uma verdadeira legião,
e o Urbana obviamente porque eram uma legião na cidade, que
faziam música urbana. Banda formada, nome encontrado, tudo
pronto para o primeiro show.
Curiosamente,
o primeiro show do Legião não foi em Brasília,
mas em Minas Gerais, numa certa Festa do Milho, onde o promotor da
festa havia decidido encaixar algumas bandas de rock entre atrações
mais populares. O Show não terminou muito bem, com todos os
integrantes da banda algemados. O Motivo? Em plena ditadura militar
o vocalista da Plebe Rude, André Mueller começou a conversar
com o público, todos moradores da região e trabalhadores
agrícolas na maioria, conversa cujo teor socialista não
agradou a polícia. Após algumas horas na delegacia foram
todos liberados e voltaram para Brasília sãos e salvos.
O sucesso da banda veio somente no terceiro show, no Centro Comercial
Norte, onde apesar do público baixo, a banda foi recebida com
grande entusiasmo, um passo enorme para eles.
Paraná
e Paulo Paulista não duraram muito. Paulista saiu tão
rapidamente quanto entrou, e Paraná não se encaixava
no padrão de música da banda.
Paraná
era um músico mais profissional, com um trabalho elaborado.
Seus solos intermináveis e estilizados eram fruto de suas influências
musicais, guitarristas do porte de Jimmy Page e Jeff Beck. Solos não
combinavam com a música punk, de poucos acordes e ritmo rápido.
Outro motivo para a saída de Paraná e Paulista era que
eles impunham um estilo nitidamente pesado ao som da banda, muito
Heavy Metal, o que incomodava Renato Russo e Marcelo Bonfá.
O buraco
causado por Paraná foi coberto por Íco Ouro Preto, amigo
de Renato Russo e ex-integrante do Aborto Elétrico. Íco
também não ficou muito, não chegou nem a subir
no palco (era famosa a lenda de que o guitarrista morria de medo do
palco). Íco também na época já estava
em dúvida quanto ao seu talento musical, e decidiu ser fotógrafo,
arrumando as malas e indo para Europa. Outro motivo dele ter abandonado
a banda, só explicado recentemente, foi uma cena presenciada
por ele numa festa, onde Renato Russo, bêbado, agarrou um cara,
deixando Íco em dúvida quanto as preferências
sexuais de Renato. Durante sua passagem peloLegião, Íco,
acostumado ao estilo do punk rock, ajudou a terminar arranjos de algumas
músicas, que não davam certo com Paraná.
Depois da
saída de Íco Ouro Preto, Russo e Bonfá se viram
com um grande problema: eles haviam alugado (junto com a turma) o
Teatro da AOB para tocarem por quatro finais de semana. Os dois não
sabiam o que fazer, e pensaram em várias alternativas, como
seguir em dueto, desistir, utilizar percussão eletrônica,
quando se lembraram de um outro guitarrista sem banda: Dado Villa-Lobos.
Dado (isso mesmo, ele é sobrinho neto de nada menos do que
Heitor Villa-Lobos) se mostrou um guitarrista tão bom que assumiu
o posto definitivamente no Legião. Além de tudo, ele
aprendeu em poucos dias tudo o que os outros integrantes na banda
haviam demorado semanas para assimilar, e de quebra, ajudou a terminar
e encontrar o ritmo para diversas músicas do Legião.
A apresentação acaba sendo um sucesso. (anos depois
a banda utilizou desenhos de Bonfá no álbum "Que
País é Este" para ilustrar uma história
em quadrinhos contando sobre a entrada de um guitarrista fixo na banda).
Mesmo com
a entrada de Dado, a banda tem pouco tempo para trabalhar em músicas
novas para várias apresentações agendadas, e
precisam de uma saída. A saída ? tocar hardcore; a música
é simples e de poucos acordes, com uma energia contagiante.
Dessa época surgem "Petróleo do Futuro" e
"Teorema", entre outras. Algumas músicas da época
do Aborto Elétrico, mesmo a contragosto da banda, precisaram
ser utilizadas, como "Química" e "Conexão
Amazônica" que ganharam arranjos diferentes. Outras como
"O Reggae" são terminada com o auxílio de
Dado, completando assim o repertório do Legião.
Nessa época os Paralamas estavam a pleno vapor, fazendo muito
sucesso no Brasil. E para sorte do Legião, Bi Ribeiro, integrante
da turma e ex-aluno de inglês de Renato Russo consegue uma oportunidade
para a banda: gravar um álbum pela EMI, gravadora dos paralamas,
que acabam se tornando seus "padrinhos".
As gravações
estão no meio, e um fato marcante acontece: Renato Russo corta
os pulsos depois de uma briga com a gravadora por causa dos arranjos
de "Geração Coca-Cola". Depois do incidente,
Renato fica incapacitado de continuar tocando baixo, e para resolver
o problema a gravadora coloca Renato Rocha (mais conhecido como Negrete)
no baixo, liberando Renato Russo para os vocais.
A gravadora
lança então, em 1985, o primeiro álbum auto-intitulado
"Legião Urbana". As músicas eram do repertório
básico (Será, Ainda é Cedo, Petróleo do
Futuro, Teorema, Por Enquanto, Perdidos no Espaço, A Dança,
O Reggae, Baader Meinhof-Blues, Soldados e Geração Coca-Cola).
A EMI estava receosa, pois achava que o Legião era só
mais uma banda querendo se aproveitar do sucesso dos Paralamas, como
dezenas de bandas que surgiram na época.
Mas o receio
não durou. Em pouco tempo músicas como "Será"
e "Ainda é Cedo" estavam tocando nos rádios
e atingindo altos níveis de audiência.
No mesmo
ano, a banda se junta em estúdio para iniciar as gravações
de seu segundo disco chamado "Dois" (existem duas versões
para a banda ter utilizado esse nome no disco; a primeira é,
como o próprio nome diz, por ser o segundo trabalho; a segunda
versão diz que o nome vem do fato que o segundo álbum
devia ser duplo - dois discos - mas como a gravadora ainda não
tinha certeza se a banda conseguiria repetir o sucesso do primeiro
álbum decidiu lançar um álbum simples. O nome
desse álbum duplo deveria ser "Mitologia e Intuição).
O disco (com as faixas "Daniel na Cova dos Leões",
"Quase sem Querer", "Acrilic On Canvas", "Eduardo
e Mônica", "Central do Brasil", "Tempo Perdido",
"Metrópole", "Plantas Embaixo do Aquario",
"Música Urbana 2", "Andrea Doria", "Fábrica"
e "'Índios'"), marca época no rock e se torna
um marco para a banda. Nele, o Legião acaba definindo seu estilo
de música, um rock suave, mas com pitadas de hardcore, com
uma música em segundo plano e variações vocais
e instrumentais, e letras profundas e com críticas a sociedade
e a humanidade mas extremamente poéticas, que nos faziam pensar,
sem contar nas músicas folk-urbanas, que também marcaram
um estilo de Renato Russo cantar e tocar.
O álbum
se torna rapidamente um sucesso de vendas, e também foi o disco
mais vendido da história da banda. Nessa época, acontece
a primeira trágedia com a banda: num show em dezembro de 1986
no ginásio poliesportivo de Brasília, um quebra-quebra
termina com uma menina morta e 20 pessoas feridas. Esse fato colaborou
a atitude da banda de realizarem pouquíssimos shows durante
sua trajetória.
O incidente
quase terminou com o Legião. Depois de dois anos sem se manifestar
e com a decisão de não fazer mais shows em Brasília,
o grupo desiste da idéia de abandonar a carreira e lança
mais um álbum novo, o terceiro da banda, "Que País
é Este". Este ábum trouxe surpresas ao público,
pois ao invés de colocarem composições novas,
o Legião gravou músicas da época do Aborto Elétrico
e do início da carreira da banda, numa espécie de retrospectiva
da carreira. O disco trazia junto um encarte que contava uma breve
história da banda, desde a época do Aborto, e comentava
cada música individualmente, contando também a história
delas.
Foi outro bom álbum, que alcançou boas vendagens. As
músicas do álbum ("Que País é Este",
"Conexão Amazônica", "Tédio (Com
Um T Bem Grande Pra Você)", "Depois do Começo",
"Química", "Eu Sei", "Faroeste Caboclo",
"Angra dos Reis", "Mais do Mesmo") mostravam bem
como o grupo mudou do punk para um rock mais leve e elaborado. Podemos
destacar algumas músicas daí: Que País é
Este - A faixa título do disco é um grande grito de
protesto, que agora podia ser gravado sem problemas com censura. Rock
dos bons, com direito a bate-estaca e refrão animador, era
uma das que mais empolgava o público nos shows. Química
- Outra música da época do Aborto Elétrico, mas
merece destaque por ser conhecida em várias versões
(uma das duas músicas do legião que mais possuíam
versões gravadas, mas que foram incluídas em álbuns
somente mais tarde. A outra música é "Canção
do Senhor da Guerra", que também era para ter saído
nesse álbum, mas foi retirada pois era parecida demais com
as outras canções acústicas. Ela foi lançada
anos mais tarde em versão elétrica na coletânea
"Música para Acampamentos". Química, voltando
ao assunto, já havia sido gravada pelos Paralamas e uma versão
na voz do Legião foi incluída nas primeiras cópias
cassete do disco "Dois"), mas a música que mais merece
destaque é, sem dúvida, "Faroeste Caboclo".
Faroeste foi uma música que fugia dos padrões fonográficos
da época, pois era comprida demais (mais de 8 minutos), mudava
de ritmo diversas vezes no decorrer (começava no conhecido
folk, e terminava um punk de arrepiar!), e, como "Eduardo e Mônica",
possui um storyboard (possui uma história com personagens e
tudo mais). A música contava a história de João
do Santo Cristo, um rapaz pobre e de vida simples e difícil
que vai para a capital do país tentar a sorte e acaba no crime.
Pode
ser interpretada como o povo brasileiro, sofrido, que espera dos políticos
uma solução que nunca aparece. Grande sucesso até
hoje, que as rádios foram obrigadas pelo público a transmitir
sem parar.
Depois de
dois anos sem tocar em Brasília, o grupo resolveu fazer um
show, muito esperado pelos fãs, mas a organização
deu um exemplo de descaso e negligência, preparando um esquema
ridículo de segurança, o que não deveria ocorrer,
visto o saldo do último show do grupo em Brasília.
O show,
feito no Estádio Mané Garrincha, levou 50 mil fãs
para assistir a banda se apresentar. O palco foi instalado muito baixo,
próximo do gramado, o que não impediu a platéia
de subir e atirar objetos, como bombinhas, por exemplo. Até
um fã descontrolado subiu e se agarrou no pescoço de
Renato Russo, que assustado, continuou tocando para ver se conseguia
botar ordem. Mesmo assim o grupo teve que se retirar do palco, revoltando
a platéia. As cenas que se seguiram foram terríveis.
Uma verdadeira batalha campal se iniciou, entre o público e
a polícia, que, montada a cavalo disparava gás lacrimogênio
na platéia. O quebra-quebra aumentou até que se espalhou
pela cidade, e terminou com um saldo de 385 feridos, 60 pessoas presas
e 64 ônibus depredados. Enquanto isso Renato Rocha e Bonfá
choravam no camarim enquanto Renato praguejava que não havia
vindo até Brasília para dar um show para animais. Nunca
mais o Legião voltou a tocar na capital.
Depois de
um longo tempo sem gravar, dois anos, a legião sai do estúdio
com um trabalho que revolucionaria sua trajetória e o rock
brasileiro: o disco "As Quatro Estações",
já sem o baixista Renato Rocha, que se desligou do grupo logo
após o final das gravações de "Que País
é Este", pois não conseguia se adaptar aos compromissos
com shows e gravações.
O Novo álbum,
onde Renato e Dado se encarregaram dos baixos, é considerado
por muitos o grande divisor de águas da história da
banda. Em suas onze músicas ("Há Tempos",
"Pais e Filhos", "Feedback Song For A Dying Friend",
"Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto", "Eu Era
Um Lobisomem Juvenil", "1965 (Duas Tribos)", "Monte
Castelo", "Maurício", "Meninos e Meninas",
"Sete Cidades" e "Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar")
o lago mais pesado substituído por canções belas,
com um forte apelo sentimental, e temas mais pesados (como o homossexualismo,
por exemplo) adotado em suas letras. Renato também incluiu
citações religiosas nas músicas, como trechos
do novo testamento (Junto com os Sonetos de Camões em "Monte
Castelo"), o Credo (em "Se Fiquei Esperando o Meu Amor Passar"),
citações budistas (em "Quando O Sol Bater...")
até citações de livros orientais antigos. Um
álbum profundo, que teve quase todas músicas transformadas
em sucessos nas rádios, e um dos álbuns mais vendidos
da banda.
Através
desse álbum com letras mais diretas, o público mais
jovem (que era criança na época do início do
Legião) se identificou mais com as poesias de Renato Russo,
aumentando ainda mais o número de fãs da banda, a essa
altura consolidada como a maior banda de rock do Brasil.
A partir
de 1990, houve uma grande reviravolta na banda, mais precisamente
com Renato Russo. O líder e vocalista assumiu publicamente
em uma entrevista que era homossexual, e no mesmo ano descobriu que
era portador do vírus da AIDS. Para completar, Renato se afundou
no vício, consumindo muita cocaína e heroína.
Todas essas mudanças podem ser notadas no disco "V",
lançado em 1991.
O novo álbum,
mais uma vez surpreendeu os fãs. Era pesado tematicamente,
com músicas tristes e letras que falavam do vício nas
drogas e de paixões perdidas (fruto de um relacionamento terminado
abruptamente na época). Talvez por ter sido um álbum
triste foi um que tinha as melodias mais belas do grupo, mas mesmo
assim teve músicas bem executadas nas rádios (talvez
pelo próprio status da banda). Entre as faixas ("Love
Song", "Metal Contra As Nuvens", "A Ordem Dos
Templários", "A Montanha Mágica", "O
Teatro dos Vampiros", "Sereníssima", "Vento
no Litoral", "O Mundo Anda tão Complicado",
"L'Âge D'Or" e "Come Share My Life"), podemos
destacar "Metal Contra As Nuvens". É uma música
sem igual na história da banda. É também a música
mais longa até então (11 minutos) e era dividida em
quatro partes, que trazia temas medievais e heróicos, numa
letra cheia de sentimento. Outras músicas como "A Ordem
Dos Templários" e "Come Share My Life" por serem
músicas totalmente instrumentais.
Em 1992,
a gravadora lança a coletânea "Música para
Acampamentos", um álbum duplo com 20 gravações
ao vivo e de especiais para rádio e televisão, onde
a banda mostra talento intercalando seus sucessos com covers dos Beatles
e Rolling Stones. Nesse disco foi incluída a versão
elétrica de "Canção do Senhor da Guerra",
música, como já dita anteriormente, que possuía
várias versões gravadas mas nenhuma em disco.
Depois outro
longo período de dois anos sem gravar, os fãs já
estavam ansiosos por novos trabalhos do Legião, e em 1993,
são pegos novamente de surpresa com o álbum "O
Descobrimento do Brasil", o sexto da carreira da banda.
O disco
mostrava um Renato Russo alegre, de bem com a vida, recuperado do
problema com as drogas e apaixonado. A capa, bem diferente do estilo
das anteriores, trazia os três integrantes vestindo roupas medievais
(Renato de monge, Dado de cancioneiro e bonfa de camponês),
no meio de um campo florido. Foi também o primeiro álbum
a trazer um videoclipe com produção elaborada e figurino
(a música "Perfeição"). Quanto as músicas
do álbum ("Vinte e Nove", "A Fonte", "Do
Espírito", "Perfeição", "O
Passeio da Boa Vista" , "O Descobrimento do Brasil",
"Os Barcos", "Vamos Fazer um Filme", "Os
Anjos", "Um Dia Perfeito", "Giz", "Love
In The Afternoon", "La Nuova Gioventú", "Só
Por Hoje") elas falavam sobre o amor e a morte, mas ainda mantinham
letras de críticas a sociedade (novamente, "Perfeição").
Uma das músicas, "Os Barcos", entrou na trilha sonora
de uma novela na rede Manchete. A EMI aproveitou o álbum muito
bem comercialmente, que também teve vendagens boas, mas não
tantas com os discos anteriores. Muitos fãs antigos não
gostaram pois acharam que o estilo de música havia mudado muito.
A Legião também fez alguns shows desse álbum,
sendo um deles inclusive transformado para a televisão com
depoimentos da banda. O Show foi mostrado a exaustão após
a morte de Renato.
Três
anos se passaram e os fãs tinham poucas notícias da
banda e estavam ávidas por novos trabalhos. Neste meio tempo,
para burlar a ausência do grupo, a EMI lança em 1995
uma lata em edição limitada com todos os álbuns
da banda, com exceção do disco duplo "Música
para Acampamentos", remasterizados por Dado Villa-Lobos nos estúdios
londrinos da Abbey Road. A lata incluía um livreto com a história
da banda e dos discos, e se esgotou rapidamente das lojas. Posteriormente,
a EMI distribuiu no mercado os CDs da lata, individualmente, substituindo
as gravações originais. Os CDs receberam novo tratamento
visual, inclusive no rótulo, e também um selo desenhado
por Marcelo Bonfá (Os três andando descalços)
impresso na contracapa.
Entre esses
três anos, Renato lançou dois álbuns solo, o "The
Stonewall Celebration Concert", um álbum comemorativo
cantado em inglês, que celebrava os vinte anos de um levante
homossexual nos Estados Unidos. O disco continha músicas de
Bob Dylan e Madonna, entre outros cantores, e teve seus lucros revertidos
para campanha contra a fome do sociólogo Herbert de Souza.
O outro
álbum solo, "Equilíbrio Distante", era um
álbum cantado em italiano, que segundo Renato, foi feito a
pedido de sua família, que gostaría de vê-lo cantando
músicas tradicionais em italiano. O disco, foi um sucesso de
vendas instantâneo, com mais de 300 mil cópias, e teve
suas músicas (principalmente "Strani Amore") tocadas
em rádios que nunca antes haviam tocado rock ou falado em Legião
Urbana. O trabalho serviu também para chamar a atenção
das pessoas pelo lado poético de Renato, e para a beleza de
suas composições. Muitas pessoas que se arrepiariam
de escutar um disco de rock se tornaram fãs do legião
depois do trabalho solo. O disco rendeu também videoclips,
uma indicação para o Video Music Awards Brasil 96 e
levou o Premio Sharp de Música na categoria "Melhor Álbum
em Língua Estrangeira".
Depois do
intervalo mais longo entre um álbum e outro do Legião,
a EMI lança em meados de Setembro de 1996 o disco "A Tempestade
(ou o Livro dos Dias)". O lançamento foi apressado, pois
Renato estava muito enfraquecido e doente, e a gravadora temia que
o disco acabasse sendo póstumo. As primeiras tiragens do disco
vieram acondicionadas em uma caixa especial de papelão( que
ao mesmo tempo era o encarte), como no disco em italiano. O encarte
trazia no final uma lista de entidades de defesa dos direitos humanos,
da mulher e da criança, para que o público pudesse ajudar.
O Trabalho
causou, mais uma vez, surpresa até mesmo nos fãs mais
acostumados com as reviravoltas da banda. Ele trazia um Renato com
a voz sensivelmente debilitada pela doença, melodias e letras
tristes que falavam de dor, tragédia e despedida. O álbum
trazia poucas músicas com apelo comercial para as rádios
e a primeira faixa transmitida foi "A Via Láctea"
(a faixa, depois da morte de Renato, foi finalmente compreendida como
a sua despedida do mundo).
As músicas
("Natália", "L'Avventura", "Música
de Trabalho", "Longe do Meu Lado", "A Via Láctea",
"Música Ambiente", "Aloha", "Soul
Parsifal", "Dezesseis", "Mil Pedaços",
"Leila", "1º de Julho", "Esperando por
Mim", "Quando Você Voltar", "O Livro Dos
Dias") eram de vários estilos diferentes. Tinha desde
melodias passando por blues, soul, até lembranças de
um Legião punk. Duas músicas merecem destaque: "Soul
Parsifal", por ter sido feita em parceria com Marisa Monte, e
por ser a mais alegre do disco; e "Dezesseis", por ser mais
uma música com storyboard, contanto a história de um
garoto que morre (se suicida) em um racha. Era também uma lembrança
da época do punk rock.
Esse seria
o último trabalho do Legião Urbana.
No dia 11 de outubro de 1996, o Brasil, em especial os fãs
da banda, acordaram chocados com a notícia de que o poeta,
músico e líder do Legião Urbana, Renato Russo,
cujo nome de batismo era Renato Manfredini Jr, havia morrido na madrugada
vítima de complicações resultantes da AIDS. Era
o fim de uma era.
Dias depois,
a banda anunciou em uma entrevista coletiva na sede da EMI, que o
Legião estava oficialmente terminado. Terminava nesse dia também
a trajetória da maior banda de rock do país de todos
os tempos, uma banda que era quase uma religião, um estilo
de vida para os fãs. Para eles, sobraram as lembranças,
saudades e músicas de um tempo onde éramos jovens e
inocentes, e tudo parecia que ia mudar no país. Um tempo que
agora parece muito distante, perdido mesmo.
Quanto a
Renato, seu corpo foi cremado e suas cinzas foram jogadas sobre um
jardim florido no sítio do paisagista Burle Max, a pedido do
próprio poeta.
Depois da
morte de Renato, em 1997 a banda resolve juntar velhas gravações
e out-takes do segundo e do último álbuns, que deveriam
ser duplos. A EMI lança então o álbum "Uma
Outra Estação", o álbum póstumo do
grupo, que foi vendido rapidamente (assim como todos os outros álbuns
da banda que se esgotaram das lojas após a notícia da
morte do poeta).
Quanto as músicas ("Riding Song", "Uma Outra
Estação", "As Flores do Mal", "La
Maison Dieu", "Clarisse", "Schubert Länder",
"A tempestade", "High Noon (Do Not Forsake Me)",
"Comédia Romântica", "Dado Viciado",
"Marcianos Invadem a Terra", "Antes das Seis",
"Mariane", "Sagrado Coração" e "Travessia
do Eixão") podemos destacar: Riding Song - A faixa conta
com a participação do ex-baixista Renato Rocha, que
toca e canta em conjunto com os outros dois integrantes. Renato Rocha,
foi encontrado por acaso em um restaurante por Dado Villa-Lobos e
decidiram imediatamente entrar em estúdio para gravar. A Tempestade
- deveria ser a faixa-título do outro álbum, mas acabou
saindo somente neste. Clarisse - É uma música autobiográfica,
que retrata Renato Russo na pele de uma menina de 14 anos. É
também uma das músicas mais comprida do grupo, com mais
de 10 minutos, e por fim Sagrado Coração - a música
é só instrumental, pois Renato não teve tempo
de gravar os vocais.
O que podemos
esperar do futuro da banda ? Como o grupo tinha renovado um contrato
para lançar três álbuns em 5 anos, podemos esperar
ainda um disco com gravações ao vivo, e home-videos
com gravações de show. Também havia a intenção
de se gravar um disco tributo com vários artistas convidados,
de Nação Zumbi a Max Cavalera, mas o projeto, inicialmente
sugerido por Fê Lemos (ex-capital inicial e ex- aborto elétrico)
foi rejeitado porque era claramente uma auto-promoção
do músico que ressurgiu das trevas depois da morte do ídolo.
A única certeza que temos para o futuro é que os fãs
jamais se esquecerão do trabalho genial do grupo, que estará
sempre em nossa memória. Força Sempre.